Rogério era um evangelista que pregava em praça pública. Sempre depois do sermão, ele prometia curar todos os presentes, impondo as mãos sobre os que fossem à frente. Na noite em que o ajudei, uns oitenta responderam ao apelo. Entre eles, uma senhora carregava um menino com graves disfuncionalidades motoras; percebia-se que nascera com alguma Síndrome genética rara.
Rogério, como um pastor pentecostal, compreensivelmente, desejava que milagres acontecessem. Quando vi os rostos ávidos por um socorro celestial, repeti para mim mesmo que eu também seria capaz de ficar a noite inteira de joelhos clamando aos céus, se necessário, para que todos ali fossem curados. E não desgrudei os olhos, um minuto sequer, daquele menino nos braços de sua mãe.
Mas nada aconteceu! As nuvens que escondiam a lua permaneceram imóveis e sequer um fiapo de luz nos alcançou
O menino, como um boneco de pano sem músculos continuava flácido no colo materno. O culto acabou e, com certeza, os dois voltaram tristes para o barraco fétido onde viviam.
Depois que o povo foi embora, continuei ao lado de Rogério, mas tive pena de vê-lo suado de gritar feito um náufrago desesperado pela indiferença do navio que passa.
Ele me olhou, entretanto, com um soslaio triste. Talvez não quisesse encarar-me, pois sabia o que eu pensava sobre o que acabara de acontecer.
Aquela noite marcou-me a ferro. Fiquei devastado. Não consegui sequer indagar onde errávamos. Também, não achei certo confrontar a sinceridade do Rogério, que dava seus primeiros passos como evangelista. Eu não tinha o direito de azedar ainda mais seu insucesso em produzir milagres para a glória de Deus - não lhe faltava integridade.
Passados vinte e cinco anos daquela noite, nunca conversei com ninguém sobre os traumas provocados pela nossa incapacidade de produzir aquele único milagre que poderia ter mudado a miséria de uma criança.
Não sei se Rogério ainda prega em praças. Eu, porém, continuo cuidando de uma igreja. Entre os membros de nossa comunidade temos crianças portadoras de síndromes igualmente complicadas, amputados, idosos com doenças crônicas, surdos (formamos um grupo de surdos e nossos cultos já são traduzidos pela linguagem dos sinais) e deficientes visuais.
Como não consigo varrer para debaixo dos tapetes misteriosos da teologia as respostas que preciso dar a mim mesmo, iniciei uma nova jornada para entender o significado da fé.
Fé já não significa para mim uma força projetada na direção de Deus que o induz a agir. Não entendo que Deus esteja inerte, esperando pela habilidade das mulheres e dos homens de mexerem com seu braço. Inclusive, parei de dizer que fé move o braço de Deus.
Fé já não significa para mim uma senha que escancara as janelas das bênçãos celestiais. Rejeito a noção de que Deus oculte suas maravilhas ou dificulte nosso acesso a elas. Não precisamos nos comportar como crianças que caçam ovos de chocolate na Páscoa. Aliás, considero a expressão “conquistar uma graça” uma contradição tão horrorosa, que me arrepio todas as vezes que a ouço.
Fé significa para mim uma aposta de que os valores, os princípios e as virtudes do Evangelho bastam para que eu enfrente a vida com todas as suas contingências. Vejo que personagens bíblicos não arredondaram a vida, não se anteciparam aos acidentes futuros e nem se blindaram contra as maldades humanas. Igual a eles, não quero viver em redomas.
Fé significa para mim que o Espírito de Cristo dá ganas de olhar para história com coragem para não precisar apelar para o mágico, para o feitiço e para o sobrenatural. Por causa da fé não pedimos para ser poupados da dor. A fé bíblica convoca que andemos nas pegadas de Jesus e não encolhamos diante do patrulhamento religioso, da perseguição e da morte impostos pelos regimes imperialistas.
Fé significa para mim a possibilidade de rebelião contra o status quo porque ele não reflete a vontade de Deus. O sofrimento humano não faz parte de uma Providência remota, as catástrofes não são dores de parto que prenunciam o alvorecer de um futuro glorioso.
O colonialismo que condenou centenas de milhões de negros a horrores indescritíveis, as guerras inúteis que dizimaram jovens ingênuos, os horrores da prostituição infantil, não foram planejados por Deus. Convivemos com um sistema em aberta rebelião contra o Criador e contra ele devemos nos insurgir.
Existe uma fé profética, visceral, que me convoca a gritar NÃO! Ela me deixa irrequieto. Minhas zonas de conforto acenam na minha própria cara, pois vivo atrelado ao sistema pequeno-burguês que legitima a deterioração ambiental; calo diante do capitalismo neoliberal que produz excluídos; acovardo-me diante das ameaças de ser um exilado social.
Já que abandonei o paradigma de uma fé funcional, utilitária, de causa e efeito, quero, tão somente, ter peito para aceitar o risco de viver sem pé de apoio, de viver a liberdade prometida por Cristo e de almejar uma única segurança: saber-me gratuitamente amado de Deus.
2007 Ricardo Gondim
quarta-feira, 18 de julho de 2007
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